Livro: Meu vício
Autora: Kell Teixeira
Páginas: 387
Editora: Bezz
Tema: Romance, realidade.
Autora: Kell Teixeira
Páginas: 387
Editora: Bezz
Tema: Romance, realidade.
Sinopse: Elena Tyner é uma garota comum de dezenove anos que cursa psicologia. Devido a uma criação tradicional, assim como a sociedade em sua maioria, ela possui preceitos e preconceitos contra usuários de drogas, passando até ter repúdio pelos mesmos. Mas tudo muda quando ela faz uma entrevista com um usuário, se envolve e passa a ver o outro lado da história.
Nesse drama é relatado de forma clara e espontânea a amarga experiência que é conviver, amar, e presenciar uma pessoa entregar sua vida para as drogas... Um caminho obscuro e muitas vezes sem volta...
Falar sobre dependência química é muito forte, muito atual e de suma importância. Mostrar todo sofrimento do dependente e de todos ao redor de forma tão realista e interessante, faz com que a gente vivencie o sofrimento junto com Maycon e Elena. E sinta o amor surgindo no meio das trevas, da dúvida. Um amor puro e sincero, porém não aceito.
O livro conta a história de Elena Tyner uma aluna de psicologia de 19 anos que precisa entregar um trabalho sobre drogas ilícitas e para complicar a sua vida o professor lhe pede que faça uma entrevista com um viciado em drogas e eis que ela conhece Maycon Sebastian, um viciado em cocaína em um ponto de ônibus na qual ele responde as questões prontamente e sai sem maiores explicações. O que ela não esperava era que desse encontro sua vida tomaria um outro rumo, um rumo a qual ela não estava preparada para seguir.
Tenho que começar dizendo que achei o início um pouco corrido, toda essa coisa de eles se apaixonarem de maneira rápida me deixou um pouco com o pé atrás e demorei um pouco pra pegar o ritmo da leitura, mas eis que sou surpreendida com Maycon usando cocaína e não querendo largar o vício, pois ele se sente bem sendo um viciado.
Todo o livro me surpreendeu porque imaginei que aconteceria coisas completamente diferentes. Achei que a autora fosse fantasiar, ou melhor, mascarar um pouco esse lado das drogas e mostrar que o amor pode tudo mas ela não o fez e isso me deixou de queixo caído com a veracidade dos fatos que ela apresentou.
"Afinal, desde que entrei na faculdade, passo tanto tempo sozinha que já era para ter me acostumado, mas esse é o problema, você se acostuma, aí conhece alguém, deixa esse alguém se aproximar e... Acaba se esquecendo de como é estar sozinha."
De um lado temos Elena, que apesar de amar muito Maycon, não aceita dividi-lo com a cocaína e depois de conhecermos um pouco desse amor arrebatador, (disse que não gostei da forma como se apaixonaram rápido demais e não da forma como esse amor foi desenvolvido, que por sinal, foi muito lindo) Elena lhe pede para largar o vício e ele diz que não é fácil mas que vai tentar a todo custo e assim que a faculdade entra em período de férias, ele aceita de bom grado ser internado em uma clínica de reabilitação, mesmo não recebendo muito apoio da namorada ao longo desse período de tratamento.
Do outro lado temos Maycon que ama Elena mas não tanto a ponto de largar a cocaína e assim vemos uma mocinha sofrer horrores por causa de um vício asqueroso que acaba com a vida das pessoas. Maycon é um cara autêntico, ele é o típico bad boy, o terror dos pais das menininhas, que usa drogas e não se importa nem um pouco com isso, mas vai além disso. Maycon tem uma personalidade forte, é um poço de sarcasmo e ironia mas que mesmo ele sendo todo errado (e ele reconhece isso várias vezes) não tem como não nos apegarmos a ele.
Posso dizer que amei e odiei todos os personagens ao mesmo tempo devido as suas atitudes no decorrer da história. Amei Maycon pelo que ele representava para Elena e o odiei por ser um fraco. Amei Elena por dar força para o rapaz ir para a reabilitação e a odiei porque no momento em que ele mais precisou dela, ela simplesmente surtou. A única que eu realmente odiei com todas as minhas forças foi a safada da April.
"-- Algumas pessoas não suportam a verdade.
-- Algumas verdades têm que ficar só para nós."
Mas a história não para por aí, temos outros personagens muito marcantes nessa trama como os pais de Elena, os pais de Maycon, Jayde e Keven. (Também os amei e os odiei na mesma proporção)
O livro mostra que não existem pessoas perfeitas, revela ao leitor o lado obscuro da droga e o que ela faz com o usuário, com sua família e as pessoas que o amam e se importam com ele.
"Sinto êxtase, prazer, me sinto viva, É inexplicável, sinto euforia, sensação de que posso tudo e posso mais que todos, me sinto livre, e assim como ele, sei que preciso de mais, cada vez uma dose mais forte, não nas veias, mas no coração."
Veja bem, a sociedade pinta para nós que somente pessoas de cabeça fraca usam drogas, mas não acredito que isso seja inteiramente verdade. Maycon presenciou a separação dos pais devido a uma traição do pai. Ele viu a mãe sofrendo e chorar por noites a fio. Viu o pai construindo uma outra família, tendo uma outra filha e seguindo um rumo diferente. A verdade lhe foi imposta da maneira mais difícil e cruel. Não estou justificando os erros dele, mas acho que no momento da separação, ao invés de os pais ficarem correndo atrás da guarda do menino deveriam dar amor e atenção pois esse é um momento muito difícil para uma criança. Imagina seu pai chegar do trabalho todo dia e embora cansado ele brinca com o filho até este ficar satisfeito e liberar para que o pai possa tomar banho e ir dormir para iniciar sua rotina novamente no dia seguinte e do nada isso lhe é arrancado dele? Só quem já passou por isso sabe o quanto é doloroso. A falta de diálogo em casa pode muitas das vezes ser prejudicial de modo que os pais tiveram que se unir novamente para poder ajudar o filho a sair dessa.
E como se não bastasse toda essa pressão psicológica em cima dele, os pais de Elena não fazem gosto dessa relação. Eu sinceramente não os culpo e acho que no lugar deles teria o mesmo posicionamento de tentar impedir que minha filha tivesse um relacionamento com um viciado em cocaína.
"O amor é raro, tão raro, que quando o encontramos, não seremos mais os mesmos se o deixarmos escapar, e não vou te deixar escapar."
Mas calma que o drama ainda não acabou, além dos pais de Maycon serem assim e dos pais de Elena não darem apoio, ainda temos Jayde, Keven e April.
Como eu disse antes, minha relação com Jayde foi de amor e ódio, até agora ainda não sei qual sentimento prevaleceu, mas vou falar um pouco dela. Ela mora com Maycon e são super amigos, como se fossem irmãos, mas mesmo estando ao lado de Maycon pra tudo, não perde a oportunidade de infernizar nossa donzela em perigo. Em certos momentos, vemos Jayde um pouco mais acessível. Ela, apesar de usar maconha, dá força ao amigo para reabilitação e até chega a orientar Elena sobre essa reabilitação e essa por sua vez, ao invés de guardar as palavras de Jayde, frequentar uma reunião de apoio aos familiares de dependentes químicos, joga tudo para o alto e passa a viver para sua dor interna. Nesse momento foi o que eu mais senti raiva dela.
Já Keven, divide o quarto do campus com Elena, são melhores amigos mas ele sempre tentou esconder que sente algo a mais por ela. Ao contrário de Jayde ciumenta que só, Keven tenta ao máximo respeitar a vontade de Elena em permanecer com Maycon mas não perde a oportunidade de dizer que ele não vai lhe fazer feliz. E como Jayde se preocupa com Maycon, Keven se preocupa com Elena e para mim é até aceitável algumas atitudes desses dois em alguns momentos.
"Não é pecado sentir medo. Como ser corajoso se andamos no escuro e não conseguimos ver um passo à nossa frente? Meu coração acelera quando penso nisso, mas nesse momento, eu me lembro que tenho você, algo me fortalece e já não me importo mais por não enxergar o caminho, não me importo com o amanhã. Porque eu só me importo com você... Estar perto de você... Eu estava morto antes de te conhecer, ainda que por algum motivo, estivesse no mundo dos vivos. Só que eu te conheci e tudo passou a fazer sentido, passei a me sentir vivo. E o único passo que quero dar agora, é um passo para mais perto de você. Sei que eu já te amava antes de te conhecer e vou continuar te amando, não por toda a vida, mas por toda a eternidade. Porque a vida é irrelevante para o amor... Me perdoe por hoje Elena, me perdoe pelo amanhã. Me perdoe sempre, porque o seu perdão é tudo que eu vou precisar daqui para frente... Do seu perdão e do seu amor..."
Mas aí você chegou até aqui e está pensando, "nossa Camila, tem triângulo amoroso e eu não gosto muito de triângulos". Um recadinho para você: Não, não tem triângulo amoroso. O fato de Keven sentir algo por Elena não atrapalha em nada no seu namoro com Maycon, ela não se sente tentada a largar o viciado e ficar com o cara certinho e também tem alguns momentos em que ela mesmo finge que não escuta Keven. O que vemos muito é Maycon com ciúmes de Keven, mas apenas isso. Para Elena o único responsável por sua felicidade é o próprio Maycon. É claro que existem algumas pessoas para atrapalhar esse relacionamento, April é uma delas, mas nada que venha sequer incitar um triângulo amoroso. Maycon é muito decidido no que ele quer e isso me fez amá-lo incondicionalmente.
April foi a mais safada, nojenta, irritante e vaca! Eu nem vou perder meu tempo falando sobre ela porque ela realmente me irritou o tempo todo. Então vamos mudar de assunto.
Gostei muito do modo como a autora me surpreendeu ao relatar esta história, que na maioria das vezes é narrada pelo ponto de vista de Elena, mas que em alguns momentos Maycon também narra, e tem um capítulo pelo ponto de vista de Keven e outro de Jayde. Os capítulos em si, são curtos, o que estimula ainda mais a leitura e nos envolve de uma maneira impressionante. A leitura, embora complexa e forte, é bem viciante, marcante e envolvente. Cheguei a chorar em alguns momentos e em outros eu não me aguentava de sorrisos.
É uma história com um tema um tanto polêmico, que muitos não tem coragem de falar e mostra claramente como é um viciado em drogas, como é o período de abstinência e a recaída. Relata como eles ficam fora de si, agressivos, paranoicos, os danos a saúde e além disso tudo, revela o estado da família e entes queridos, em como são afetados por essas ações.
"Nesse momento, sinto seu amor me dizendo que podemos lutar contra tudo, que não sou apenas um soldado nessa luta, somos dois com uma vontade imensa de vencer. Vontade imensa de encontrar nosso caminho de plena felicidade, nosso para sempre, nosso enfim juntos. O lugar onde ninguém, onde nem mesmo a maldita cocaína, poderá nos separar..."
Vemos perfeitamente os pais de Maycon e a própria Elena perdendo a fé na recuperação dele, em como ele vira um lixo humano, como ele se refere a si mesmo, e a sua trajetória até o fundo do poço. É um livro intenso e que nos faz refletir sobre a vida que essas pessoas levam.
Eu amei quando Maycon tira da fraqueza a sua força e parte para um confronto de frente contra a vontade de usar drogas. Como ele pensa no filho que Elena está esperando e como ele percebe que se continuar nesse caminho vai acabar perdendo o filho também.
Eu amei o livro porque não vi nada de fantasioso nele, apesar do início ter sido um pouco difícil para pegar o ritmo da leitura, todo o enredo vale muito a pena ler. Conhecemos as lutas para sair desse mundo obscuro e que se o próprio viciado não tiver vontade de sair, não adianta que ele vai continuar no mesmo caminho.
Adorei a forma como a autora aborda os fatos e fiquei bem curiosa para ler outros livros dela. Essa obra é digna de ser um Best-Seller.
"Um mês não resolve... No mínimo, uns quatros a seis, não vai ser fácil, na verdade, ele vai te odiar quanto tiver que encarar a abstinência, ele vai ficar louco, depressivo, insultá-la e tentar te afastar de todas as formas, mas esse não vai ser o Maycon, vai ser a falta da droga o fazendo agir assim... Vai ser bem doloroso, mas quando você achar que não suporta mais, quando achar que não dá pra ficar pior, aí que vai ficar pior. Mas não pode abandoná-lo, não pode desistir, porque se fizer, ele volta pior. E lembe-se que quando estiver a ponto de desistir, é aí que começa a aparecer a luz no fim do túnel. Vai ter que aprender a ignorar todas as vezes que ele te insultar, porque isso vai acontecer, e muito. Tem que ser forte, forte mesmo. Não se fingir como você faz... O problema dele, é que Maycon viu seu porto seguro ruir quando os pais separaram, ele sempre desejou ter uma família de volta. A chave é essa, mostre a ele que pode ter isso com você. Mostre o quanto o ama e que existe outro caminho além desse. Assim ele vai querer sair também, porque não adianta se ele não quiser... Acha que pode fazer isso? Acha que pode ser forte por vocês dois?"
Quando terminei o livro fiquei pensando em quantos Maycon Sebastian existem por aí, acabando com suas vidas e quantas Elena Tyner estão na luta para resgatar o namorado. Quantas Emily e quantos Isaac existem e vêem o filho definhar por um vício sujo. A história, embora tenha nomes reais para os personagens pode muito bem relatar a realidade de muitas pessoas que tem parentes ou conhecidos no mundo das drogas.
É uma luta diária, na qual o vício vai querer falar mais alto, o próprio corpo vai implorar por uma última dose e parece que todos, exatamente todos, estão contra o usuário. Mas mesmo sendo difícil não é impossível e quem tem força de vontade e luta com garra consegue chegar aonde quer e foi exatamente isso que Maycon fez.
Eu recomendo muito essa leitura para aqueles que acham que suas vidas não são perfeitas. Saibam que mesmo tendo problemas, existem pessoas em situações piores que as suas e isso não é motivo para desistir. Pelo contrário, temos que seguir em frente porque um dia iremos vencer.









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